A PONTE QUE NÃO UNE CAMINHOS – Por Marcelo Pereira

O Grupo Teatro Empório com “Cidade/Abismo” transforma um tema tabu, o do suicídio, num brilhante exercício teatral contemporâneo.Foi assim na sessão do dia 16 de outubro de 2017, no palco do Centro Cultural Frei Civitella, em Cariacica (ES).Sem se ater ao sensacionalismo que gravita sobre o assunto, a companhia corajosamente leva ao palco uma abordagem humanista ao colocar como um ato suicida numa ponte, que é referência de uma região metropolitana, termina por afetar a vida de três personagens que testemunharam a tragédia. Uma cantora em busca de reconhecimento artístico, uma herdeira de uma grande empreiteira e um atendente de uma central telefônica que lida com potenciais suicidas passam a questionar suas existências e suas posturas diante da vida.

O texto de Leandro Bacellar apresenta a história em “camadas”, sem a tradicional linha aristotélica de início-apresentação-conclusão. Como na vida, tudo e todos estão dolorosa e amorosamente conectados. A direção, assinada também por Bacellar em parceria com Marco André Nunes, respeita a proposta do texto, colocando os personagens num formato narrativo cíclico.

O elenco está condizente com a proposta da direção. Tanto que a entrega dos atores é comovente. Todos ali compartilham de suas atuações, soando de forma coesa e brilhante. Atores e atrizes têm seus momentos de destaque e aproveitam muito bem disso.

Outro aspecto que chama a atenção (e que vem se mantendo como marca registrada das produções assinadas por Bacellar) é a intensa movimentação em cena, numa referência à linguagem da dança moderna. Os intérpretes unem as sensações, desejos, conflitos de seus personagens a um bem coreografado jogo de movimentos e gestos, preenchendo o palco de forma plena e eficaz. Este jogo compensa a limpidez do cenário criando momentos de uma beleza visual que soma mais carga dramática ao desenrolar das histórias.

A proposta do Grupo Teatro Empório é, mais uma vez, deixar marcada sua identidade em exercitar brilhantemente uma nova linguagem para os palcos. Desde a concepção do texto passando pelas nuances técnicas, o GTE faz de seus espetáculos uma forma contundente de apreciar artes cênicas. E com “Cidade/Abismo” não é diferente.

Marcelo Pereira é jornalista, crítico de teatro e assessor de comunicação.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *